O modelo de Educação finlandesa pode ser aplicado no Brasil?

O questionamento sobre uma potencial aplicação das práticas finlandesas em outras praças, inclusive no Brasil, é atualmente bastante comum. Alguns dizem que a intenção é boa, mas impossível de se importar para países nos quais as questões sociais são tão complexas (e complicadas) quanto o Brasil, ou outros países da América latina ou do continente africano.

Há quem diga que o sistema educacional finlandês só serviria para a Finlândia e mais ninguém. O Brasil, por exemplo, tem 53 milhões de estudantes. No ano de 2018, foram realizadas 48,5 milhões de matrículas nas 181,9 mil escolas de educação básica brasileiras, dessas, 39,4 milhões estão registradas na rede pública de ensino. Quase 4 milhões de estudantes fizeram o ENEM em 2019. A Finlândia, por sua vez, tem por volta de 500 mil estudantes na escola básica e 50 mil professores.

A primeira grande diferença é essa: o volume de estudantes. Além disso, podemos citar mais algumas, entre elas, o tamanho continental do Brasil, que dificulta bastante a inserção de iniciativas comuns, e a falta de um projeto robusto de Estado, e não de governo. A BNCC, por exemplo, ainda é uma incógnita no contexto educacional brasileiro. Alguns apostam que será mais uma lei que não “pegará” no país.

A Finlândia, ao contrário, tem elementos na sua prática que proporcionaram esse crescimento na área educacional. Segundo Maria Muuri, no site Porvir,

“Então, o que torna as escolas finlandesas consistentemente excelentes? Uma reforma curricular adotada pela Agência Nacional Finlandesa para a Educação em 2016 estabeleceu objetivos-chave que penso serem reflexos claros da abordagem finlandesa à educação: aumentar a participação dos alunos, aumentar a significância da aprendizagem e permitir que todos os alunos se sintam bem-sucedidos em seu aprendizado acadêmico e socioemocional. Os alunos estabelecem metas, resolvem problemas e avaliam seu aprendizado com base em metas estabelecidas. Os princípios que orientam o desenvolvimento do sistema educacional da Finlândia enfatizam a escola como uma comunidade de aprendizagem. Esses princípios incluem o seguinte:

Habilidades transversais

O novo currículo enfatiza as competências transversais na instrução. O que são habilidades transversais? São coisas como aprender a aprender, competência cultural, interação e autoexpressão. Eles se concentram em cuidar de si mesmo e gerenciar a vida cotidiana, mas também abrangem a competência com tecnologia e a vida profissional. Há também uma ênfase na construção de habilidades ativas que os alunos vão precisar para o resto de suas vidas, como empreendedorismo, participação, envolvimento e criação de um futuro sustentável.

Uma sociedade em mudança exige habilidades e competências cada vez mais transversais, por isso professores de cada disciplina devem promovê-las. Quando eu era professora, fiz isso atribuindo tarefas bem abertas aos alunos, com a ideia de que provavelmente haveria mais de uma resposta correta.

Apoio governamental

Para promover seu currículo nas escolas, a Agência Nacional de Educação da Finlândia está sempre buscando novas ferramentas que apóiem o ensino da melhor maneira possível. A agência identificou a realidade aumentada como uma poderosa tecnologia emergente e ajudou a desenvolver um programa de impressão em Realidade Aumentada e 3D (onde eu trabalho) especificamente criado para apoiar o novo currículo e desenvolver uma cultura escolar positiva.

Outro sucesso é a Universidade de Turku e sua empresa, a Universidade da Finlândia, que vendeu seu programa educacional anti-bullying baseado em pesquisa KiVa para 17 países ao redor do mundo. O fato de o governo ter participado desses projetos desde o início significa que a tecnologia foi projetada para apoiar a missão educacional nacional, por isso os professores não precisam olhar para uma ferramenta de tecnologia que receberam e se perguntar: “Como eu vou usar isso?

6 princípios que fazem da educação na Finlândia um sucesso - Meninas lendo na Escola Kirkkojärvi, na cidade de EspooCrédito: Riku Isohella/Velhot Photography Oy

Aprendizagem multidisciplinar

A cada ano letivo, todas as escolas devem ter pelo menos um tema, projeto ou curso claramente definido que combine o conteúdo de diferentes disciplinas e lide com o tema selecionado na perspectiva de vários assuntos. Estes são chamados módulos de aprendizagem multidisciplinar. As escolas planejam e implementam os módulos de aprendizagem multidisciplinares, e os temas e a duração podem variar de acordo com as necessidades e interesses locais. Os alunos participam no planeamento dos módulos e os professores asseguram que, ao longo deste processo, os alunos de vários níveis trabalham em conjunto.

Diferenciação

Todos os estudantes têm suas individualidades, por isso não podemos ensiná-los todos da mesma maneira. Os professores precisam diferenciar suas aulas, o que implica que geralmente há pelo menos cinco níveis diferentes de tarefas na mesma classe ao mesmo tempo.

Isso também significa que cada aluno tem seus próprios objetivos específicos que são acordados todos os anos junto com o professor, aluno e pais. Fazemos questão de ter alunos de diferentes históricos de vida trabalhando juntos. Como professora, acredito que sempre há algo que você pode aprender com alguém diferente de você.

Diversidade na avaliação dos alunos

Enquanto os professores americanos têm que lidar com testes punitivos de alto risco, o novo currículo finlandês enfatiza a diversidade nos métodos de avaliação, bem como a avaliação que orienta e promove o aprendizado. Informações sobre o progresso acadêmico de cada aluno devem ser dadas ao aluno e aos responsáveis com frequência. O retorno avaliativo também é fornecido de outras maneiras que não relatórios ou certificados. A autoavaliação e a avaliação entre pares desempenham um papel importante na avaliação e na habilidade de aprender a aprender.

Nas escolas elementares, não temos modelos para avaliação. Temos discussões de avaliação com pais e alunos pelo menos uma vez por ano, mas muitos têm o hábito de tê-los duas vezes. Estabelecemos metas e discutimos o processo de aprendizagem, e a avaliação é sempre baseada nos pontos fortes dos alunos.

Um papel ativo para estudantes

A ideia simples aqui é que os professores devem falar menos e deixar o aluno fazer mais. Os professores facilitam o ensino, enquanto os alunos estabelecem metas, refletem e resolvem problemas da vida real. Também estimulamos a curiosidade dos alunos estudando em ambientes fora da sala de aula, como o pátio da escola, a floresta, uma biblioteca ou até mesmo um shopping center.

Todos esses princípios são fundamentais para a educação finlandesa, mas o mais importante é que nosso sistema nacional é dedicado a ajudar todos os estudantes a crescer como seres humanos.”

Essas iniciativas não seriam aplicáveis no Brasil, por quê?

 

Sobre o Autor

Max Franco
Formado em Letras, é professor de Língua Portuguesa, língua Italiana, Literatura, Redação e Storytelling, além de Guia de Turismo. É pós-graduado em Inovação em educação e mestre em Gestão de negócios. Max Franco trabalha com educação faz 30 anos, tendo experiência internacional e em escolas e faculdades de São Paulo e Fortaleza. É autor de 7 livros, entre eles “Storytelling e suas aplicações no mundo dos negócios”, lançado pela Editora Atlas em 2015. É consultor de diversas Empresas de consultorias em São Paulo e Rio de janeiro, trabalhando sempre com o tema Storytelling. Max Franco acumula experiências de ministrar treinamentos empresas de marcas de renome nacional: Globosat, Estadão, Mauricio de Sousa Produções, Universidade corporativa Ernst Young (EYU), Inova Business School, Instituto brasileiro de formação de educadores, entre outras. Atualmente, é, também, coordenador do curso de Pós-graduação em Metodologias ativas do IBFE, além de palestrante indicado por consultorias de todo o Brasil. Livros escritos - Na corda bamba, romance, 2007; - O confessor, romance, 2008; - No fio da navalha, romance, 2009; - Palavras aladas, 2011 (Prêmio Milton Dias de melhor livro de crônicas de 2010 – Secult CE); - Palavras amargas, (Prêmio Oliveira Paiva de melhor livro de contos- SME Fortaleza); - Storytelling e suas aplicações no mundo dos negócios, Editora Atlas, 2015; - A jornada do aprendiz: storytelling e metodologias ativas, Unità Editora, 2018. - Inovação em sala de aula (Coautor), Unità Editora, 2018.

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